sexta-feira, 24 de abril de 2009

Nossas “coisas”, “coisas” deles

O seguinte texto foi publicado por Clóvis Rossi na Folha de S. Paulo

Do deputado Jovair Arantes (GO), LÍDER DO PTB NA Câmara, sobre a divulgação de gastos de deputados pela internet: “Não quero ser obrigado a colocar minhas coisas na internet”.
Suas coisas, uma ova, deputado. Todas as “coisas” relativas ao seu mandato são de propriedade do público. Você é apenas o representante do eleitor, não o dono das “coisas”, dinheiro incluído.
Mas é essa mentalidade porca que leva aos privilégios de que gozam os pais da pátria, que já são imorais, e, pior, ao abuso até dos privilégios imorais. Para os nobres parlamentares, não há abuso, posto que as “coisas” são deles, e cada um faz o que quiser de suas “coisas”.
Aí vem o deputado ACM Neto (DEM-BA) com a comprovação de que todo mundo, no Congresso, acha que as “coisas” são dos congressistas, tanto que afirma, com a cara-de-pau típica, que “a Casa toda fez”, em alusão ao abuso na utilização de passagens aéreas (ele é um dos abusadores, pois viajou com a mulher para Paris).
À cara-de-pau o deputado soma a calhordice de achar que “a imprensa quer fechar o Congresso”.
Diga-se que a família Magalhães entende de fechamento de Congresso: ele é apenas o mais jovem membro de uma dinastia que apoiou gostosamente a ditadura militar, que, esta sim, quis – e conseguiu – fechar o Congresso mais de uma vez.
À falta de memória do jovem Magalhães soma-se a mentira. Quem quer fechar o Congresso são os próprios congressistas. Primeiro porque se tornaram absolutamente inúteis, na medida em que são meros carimbadores de iniciativas do Executivo. Segundo porque tudo o que produzem, cotidianamente, é essa imoral confusão entre as “coisas” do público e as “coisas” deles, parlamentares.
Só se nota que o Congresso está aberto é pelo noticiário policial que produz.


Folha de S. Paulo,23 de abril de 2009. A2, Opinião

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