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sábado, 3 de dezembro de 2011

Porque hoje é sábado

e eu estou em clima de Natal.


Neste ano a minha árvore está sendo enfeitada com bolas de Natal feitas por minha irmã, Vera.
É uma homenagem muito simples perto dos sentimentos de vazio e impotência que me afetam quando penso nela.
Quero crer que ela está ajudando meu pai a enfeitar a árvore lá do céu (meu pai sempre amou esta época)
Já seria por estes dias que ele telefonaria e diria: então "bicho" (coisas de "paz e amor") o que vamos fazer para o Natal? Embora todos os anos o cardápio fosse o mesmíssimo, ficaríamos falando de vários tipos de comida e eu pegaria um papel para escrever o cardápio.
No último ano que fizemos este ritual "logrei" o velhinho. Peguei o cardápio do ano anterior e só li a lista a que ele me respondeu: - perfeito! Mas lembre que o leitão tem que ser pururuca!
A Vera era a minha "ajudante decorativa" da mesa da ceia e dos pratos. Neste ano, prevendo a trabalheira tentei treinar a outra irmã, mas ela se diz tão sem jeito que prefere lavar a louça.
Minha mãe, sempre solidária, se candidatou. Ficou tudo ótimo. Agora o problema será arranjar uma ajudante de cozinha que a substitua.
Pensei em mudar o cardápio.
Fiz planos, pensei em vários pratos e decidi que este ano teremos:
arroz branco
arroz à grega
salada mista
salada waldorf
strogonof de camarão
frutas
fio de ovos
lombo recheado
e leitão - bem pururuca

exatamente como todos os anos anteriores.

domingo, 15 de agosto de 2010

Manoel Augusto BahlsVeiga
09-05-1929
12-08-2010
Minha lembrança mais remota é a de um homem muito alto com olhos sorridentes que me carregava para perto das nuvens. Acho que foi a experiência de experimentar a proximidade do céu, nos braços do meu pai, que me ensinou a sonhar e a sorrir com os olhos. A acreditar que o mundo e as gentes que o habitam são bons, mesmo quando teimam em ser ruins. A crer que a melhor herança não é aquela que se gasta, mas sim a única que pode ser eterna: uma caixa repleta de boas lembranças.
Partilho com vocês um bolo de aniversário em formato de castelo feito pelas mãos do confeiteiro; algumas horas perdidas em uma loja feminina a escolher um vestido vermelho para o primeiro baile com o primeiro namorado; o som do coração e o calor do colo paterno antes de dormir; a laranja descascada de uma única vez e o sorriso cúmplice quando a casca se partia e rapidamente a jogávamos no lixo deixando para trás, sempre com bom humor, aquilo que teimava em nos vencer; as panelas de doces sempre fartas de “restinhos” para raspar; os chás para curar tudo do “doutor cipó”; o foguetório em qualquer ocasião do Mané Fogueteiro; as receitas de emagrecer que consistiam em conselhos de comer por um para ter o corpinho de um; os anjinhos feitos de isopor e lantejoulas distribuídos no Natal; os ninhos de Páscoa que faço há 45 anos; as distrações que faziam o carro parar no muro ou no paralama dos carros dos vizinhos; o jardim bem cuidado repleto de flores e sempre com uma mudinha de babosa para dar de presente a um convertido aos benefícios da planta; as noites nos velórios que deviam ser animadas, porque afinal “a vida é uma celebração e a morte uma distinção”; as brincadeiras no mar que o assustava – nunca aprendeu a nadar – e o fascinava; a alegria intensa e a gratidão que devemos ter por cada instante; os olhos marejados e assustados quando a violência rondou minha vida; as horas dispensadas na procura de um carro bonito – acabamos por comprar o mais bonito do pátio – vermelho lustroso e com muitos problemas mecânicos, mas estávamos orgulhosos da nossa compra; do sorriso esboçado no último dia dos pais quando as novidades do meu coração o fizeram se alegrar; dos olhos que brilharam quando ao me despedir disse” te amo”...
Há uma vida dentro dessa caixa e tenho certeza que outra caixa, igualzinha a essa, está a ser aberta lá no céu eternizando essa existência brilhante que tive o privilégio de partilhar.